Slide # 1

Ainda farei uma HQ #1

JÁ ME FALARAM QUE EU DEVIA FAZER HQS, E EU SEMPRE PENSEI NISSO, MAS A CADA DIA QUE PASSA PERCEBO MAIS QUE HQS SÃO EXTREMAMENTE COMPLEXAS... Mais informações »

Slide # 2

NINGUÉM SE IMPORTA

E AQUELE HOMEM VELHOS, DE CABELOS COMPRIDOS E BARBA GROSSA, COM SUAS ROUPAS RASGADAS E SEU CHEIRO PÚTRIDO, CAMINHAVA NAQUELA RUA SOMBRIA, MAL ILUMINADA, SENTIRIA FOME, SE SOUBESSE O QUE É ISSO... Mais informações »

sábado, 7 de junho de 2014

As margens da sociedade...

E aquele homem velhos, de cabelos compridos e barba grossa, com suas roupas rasgadas e seu cheiro pútrido, caminhava naquela rua sombria, mal iluminada, sentiria fome, se soubesse o que é isso. Ele estava lá, sozinho, em meio à milhões de pessoas sem importância, que passavam pela rua mal iluminada, e jogavam seu lixo no chão, e cuspiam naquele velho morto de fome.
Ele passava dias e noites, tardes e manhãs, ficava jogado lá, ninguém lhe dava atenção, era quase como a sombra do amigo imaginário de uma pessoa morta. Quando pisou num caco de vidro não sentiu dor, pois não sabia o que era dor, viu o sangue e pensou “vermelho”, apesar de não saber o que era sangue nem o que era vermelho; tentou reproduzir a aquela palavra da qual tanto gostou – Vehh – Tentou mais duas vezes e desistiu, apontou para seu ferimento e novamente pensou “vermelho”. Curiosamente seu sangue era verde.
Ele teve sono, apesar de não saber o que era sono, decidiu chamar isso de Vehh, assim como chamava seu sangue, a rua, e o seu cachorro. Apontou para o animal e gritou – Vehh – e o cão tão velho quanto ele foi de encontro ao seu dono, levantou uma de suas patas traseiras e expeliu um líquido amarelado – Vehh – disso o velho apontando para o líquido que molhava sua perna esquerda.
De vês enquanto alguns homens vinham em sua direção com pedaços de pau, ou “vehh” como o velho chamava, e acertavam golpes em sua cabeça, ele sem entender como deveria reagir esbanjava um sorriso, que chegava a ser perturbador; ele entendia o ato de bater na cabeça de alguém com um pedaço de pau “vehh” como uma forma de demonstrar carinho, apesar dele não saber o que era carinho, ele repetia o ato com seu cachorro (vehh), e ele parecia ter o mesmo sorriso perturbador de seu dono.
Chegou o tempo em que aquele velho cão já não aguentava mais tanto “carinho” ou “vehh”, o cão já cheio de feridas caminhou lentamente até o meio-fio e colocou a língua cara fora, o velho sentia algo que não sabia, decidiu chamar de “vehh” o cachorro branco, acinzentado pela sujeira, e avermelhado pelo sangue que escorria de sua cabeça acabou dormindo, e nunca mais se levantou, o velho o deixou lá na esperança, apesar dele não saber o que era esperança, de ver o cão se levantar.
Passado algum tempo ele percebeu que seu amigo nunca mais se levantaria, e retirou a velha coleira que ele já possuía antes de acabar com o velho, na coleira, de cor marrom acinzentada pelo tempo e pela péssima condição, estavam estampados os números “22.5.8.8”; apesar de não ter mais importância nenhuma esses números queriam dizer que alguém ganhou aquele cachorro em seu aniversário de oito anos em 22 de Maio de 2008. O velho prendeu-a em seu pescoço, como forma de se lembrar do seu antigo companheiro.
Era de manhã, o velho dormia, uma menina de não mais de cinco anos achou aquela cena do velho com uma coleira dormindo curiosa e escapando de sua mãe num momento de distração foi até ele, ela o acordou, ele levantou assustado, ela riu e com um sorriso que demonstrava uma inocência tão grande que comoveria até mesmo o mais durão dos pseudo-machos-alfas. Ela olhou para ele com curiosidade, o cutucou e disse – toma – apontando uma maçã que avia pegado escondido da sua mãe.
“Toma?” ele se perguntava assustado, e então tentou reproduzir a nova palavra que aprendera – Tom-ha – tentou mais quatro vezes quando foi interrompido pela voz doce da menina – Não, é to-ma – Ele olhou atentamente para ela, e pegando seu pedaço de pau “vehh” se preparava para atingir a cabeça da menina, quando ela correu para com sua mãe.
Tom-há? – Ele tentava dizer, muito confuso pela reação da menina – Tom-há? – Ele pegou a maçã que a menina deixou cair enquanto corria e olhou atentamente para ela sem entender – Tom-há? – Ele se perguntava sobre aquela coisa, a qual decidiu chamar de “tom-há” e a guardou junto ao que restara do cadáver de seu cachorro.
Alguns dias depois um homem bem vestido passava correndo pela rua com uma maleta nas mãos, o homem acabou tropeçando num buraco da calçada, ele gritou – Merda, me ajuda! – e o velho tentava responder – Merdamejuda? – e repetiu três vezes, quando foi até o homem caído com seu pedaço de pau “vehh”, mas o homem defendeu e deu soco na cara do velho, ele sentiu algo diferente de quando pisou no caco de vidro, aquilo o perturbou, ele decidiu chamar esse sentimento de “merdamejuda”.
O homem viu que nocauteara o velho, então decidiu se levantar e fugir antes que alguém notasse alguma coisa, na pressa ele deixou cair uma folha, e o velho viu aquilo, e passou a chama-la de “merdamejuda”. Ele examinou aquele documento durante horas até que se cansou e a deixou junto a maçã e o cadáver do cachorro.
De madrugada mais um grupo de vândalos apareceu e encontraram-no dormindo, então jogaram álcool e com um isqueiro acenderam o fogo, eles fugiram, e o fogo se espalhou, o velho acordou e viu o corpo de seu amado cachorro queimando juntamente com a maçã da menina assustada, e o documento do homem apressado, pela primeira vez uma lágrima escorreu dos seus olhos, tudo a sua volta queimava, e pela primeira vez sentiu calor, ao qual não teve tempo de dar um nome.

Seu corpo embebido em álcool queimava, e ele silenciosamente se sentou em frente ao seu vehh, tom-há, e seu merdamejuda, ele tinha agora uma expressão serena, como se ignorasse as chamas que envolviam seu corpo e o queimava, em seus últimos suspiros pensava em que cheiro a morte teria, mas de qualquer jeito ele não sabia o que era morte. De manhã seu corpo estava estirado no chão, carbonizado, não teve chance de nomear a vida, não teve chance de nomear a morte.

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