![]() |
| As margens da sociedade... |
E aquele homem velhos, de cabelos compridos e barba grossa,
com suas roupas rasgadas e seu cheiro pútrido, caminhava naquela rua sombria,
mal iluminada, sentiria fome, se soubesse o que é isso. Ele estava lá, sozinho,
em meio à milhões de pessoas sem importância, que passavam pela rua mal
iluminada, e jogavam seu lixo no chão, e cuspiam naquele velho morto de fome.
Ele passava dias e noites, tardes e manhãs, ficava jogado
lá, ninguém lhe dava atenção, era quase como a sombra do amigo imaginário de
uma pessoa morta. Quando pisou num caco de vidro não sentiu dor, pois não sabia
o que era dor, viu o sangue e pensou “vermelho”, apesar de não saber o que era
sangue nem o que era vermelho; tentou reproduzir a aquela palavra da qual tanto
gostou – Vehh – Tentou mais duas vezes e desistiu, apontou para seu ferimento e
novamente pensou “vermelho”. Curiosamente seu sangue era verde.
Ele teve sono, apesar de não saber o que era sono, decidiu
chamar isso de Vehh, assim como chamava seu sangue, a rua, e o seu cachorro.
Apontou para o animal e gritou – Vehh – e o cão tão velho quanto ele foi de
encontro ao seu dono, levantou uma de suas patas traseiras e expeliu um líquido
amarelado – Vehh – disso o velho apontando para o líquido que molhava sua perna
esquerda.
De vês enquanto alguns homens vinham em sua direção com
pedaços de pau, ou “vehh” como o velho chamava, e acertavam golpes em sua
cabeça, ele sem entender como deveria reagir esbanjava um sorriso, que chegava
a ser perturbador; ele entendia o ato de bater na cabeça de alguém com um
pedaço de pau “vehh” como uma forma de demonstrar carinho, apesar dele não
saber o que era carinho, ele repetia o ato com seu cachorro (vehh), e ele
parecia ter o mesmo sorriso perturbador de seu dono.
Chegou o tempo em que aquele velho cão já não aguentava mais
tanto “carinho” ou “vehh”, o cão já cheio de feridas caminhou lentamente até o
meio-fio e colocou a língua cara fora, o velho sentia algo que não sabia,
decidiu chamar de “vehh” o cachorro branco, acinzentado pela sujeira, e
avermelhado pelo sangue que escorria de sua cabeça acabou dormindo, e nunca
mais se levantou, o velho o deixou lá na esperança, apesar dele não saber o que
era esperança, de ver o cão se levantar.
Passado algum tempo ele percebeu que seu amigo nunca mais se
levantaria, e retirou a velha coleira que ele já possuía antes de acabar com o
velho, na coleira, de cor marrom acinzentada pelo tempo e pela péssima
condição, estavam estampados os números “22.5.8.8”; apesar de não ter mais
importância nenhuma esses números queriam dizer que alguém ganhou aquele
cachorro em seu aniversário de oito anos em 22 de Maio de 2008. O velho
prendeu-a em seu pescoço, como forma de se lembrar do seu antigo companheiro.
Era de manhã, o velho dormia, uma menina de não mais de
cinco anos achou aquela cena do velho com uma coleira dormindo curiosa e
escapando de sua mãe num momento de distração foi até ele, ela o acordou, ele
levantou assustado, ela riu e com um sorriso que demonstrava uma inocência tão
grande que comoveria até mesmo o mais durão dos pseudo-machos-alfas. Ela olhou
para ele com curiosidade, o cutucou e disse – toma – apontando uma maçã que
avia pegado escondido da sua mãe.
“Toma?” ele se perguntava assustado, e então tentou
reproduzir a nova palavra que aprendera – Tom-ha – tentou mais quatro vezes
quando foi interrompido pela voz doce da menina – Não, é to-ma – Ele olhou
atentamente para ela, e pegando seu pedaço de pau “vehh” se preparava para
atingir a cabeça da menina, quando ela correu para com sua mãe.
Tom-há? – Ele tentava dizer, muito confuso pela reação da
menina – Tom-há? – Ele pegou a maçã que a menina deixou cair enquanto corria e
olhou atentamente para ela sem entender – Tom-há? – Ele se perguntava sobre
aquela coisa, a qual decidiu chamar de “tom-há” e a guardou junto ao que
restara do cadáver de seu cachorro.
Alguns dias depois um homem bem vestido passava correndo pela
rua com uma maleta nas mãos, o homem acabou tropeçando num buraco da calçada,
ele gritou – Merda, me ajuda! – e o velho tentava responder – Merdamejuda? – e
repetiu três vezes, quando foi até o homem caído com seu pedaço de pau “vehh”,
mas o homem defendeu e deu soco na cara do velho, ele sentiu algo diferente de
quando pisou no caco de vidro, aquilo o perturbou, ele decidiu chamar esse
sentimento de “merdamejuda”.
O homem viu que nocauteara o velho, então decidiu se
levantar e fugir antes que alguém notasse alguma coisa, na pressa ele deixou
cair uma folha, e o velho viu aquilo, e passou a chama-la de “merdamejuda”. Ele
examinou aquele documento durante horas até que se cansou e a deixou junto a
maçã e o cadáver do cachorro.
De madrugada mais um grupo de vândalos apareceu e
encontraram-no dormindo, então jogaram álcool e com um isqueiro acenderam o
fogo, eles fugiram, e o fogo se espalhou, o velho acordou e viu o corpo de seu
amado cachorro queimando juntamente com a maçã da menina assustada, e o
documento do homem apressado, pela primeira vez uma lágrima escorreu dos seus
olhos, tudo a sua volta queimava, e pela primeira vez sentiu calor, ao qual não
teve tempo de dar um nome.
Seu corpo embebido em álcool queimava, e ele silenciosamente
se sentou em frente ao seu vehh, tom-há, e seu merdamejuda, ele tinha agora uma
expressão serena, como se ignorasse as chamas que envolviam seu corpo e o
queimava, em seus últimos suspiros pensava em que cheiro a morte teria, mas de
qualquer jeito ele não sabia o que era morte. De manhã seu corpo estava
estirado no chão, carbonizado, não teve chance de nomear a vida, não teve
chance de nomear a morte.

0 comentários:
Postar um comentário